terça-feira, 16 de maio de 2017

110) A Jornada Redentora (excelente)




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A jornada redentora

       Aberta a doce conversação da noite, em torno da Boa Nova, a esposa de Zebedeu perguntou, reverente, dirigindo-se a Jesus:
       — Senhor, como se verificará nossa jornada para o Reino Divino?
       O Cristo pareceu meditar alguns momentos e explanou:
       — Num vale de longínquo país, alguns judeus cegos de nascença habituaram-se à treva e à miséria em que viviam, e muitos anos permaneciam na furna em que jaziam mergulhados, quando iluminado irmão de raça por lá passou e falou-lhes da profunda beleza do Monte Sião, em Jerusalém, onde o povo escolhido adora o Supremo Pai. 
       Ao lhe ouvirem a narrativa, todos os cegos experimentaram grande comoção e lastimaram a impossibilidade em que se mantinham.
       O vidente amigo, porém, esclareceu-lhes que a situação não era irremediável. 
Se tivessem coragem de aplicar a si mesmos determinadas disciplinas, com abstinência de variados prazeres de natureza inferior a que se haviam acostumado nas trevas, poderiam recobrar o contacto com a luz, avançando na direção da cidade santa.
       A maioria dos ouvintes recebeu as sugestões com manifesta ironia, assegurando que os progenitores e outros antepassados haviam sido igualmente cegos e que se lhes afigurava impossível a reabilitação dos órgãos visuais.
       Um deles, porém, moço corajoso e sereno, acreditou no método aconselhado e aplicou-o.
       Entregou-se primeiramente às disciplinas apontadas e, depois de quatro anos de meditações, trabalho intenso e observação pessoal da Lei, com jejuns e preces, obteve a visão.
       Quase enlouqueceu de alegria.
       Em êxtase, contou aos companheiros a sublimidade da experiência, comentando a largueza do céu e a beleza das árvores próximas; 
contudo, ninguém acreditou nele.
       Não obstante ser tomado por demente, o rapaz não desanimou.
       Agora, enxergava o caminho e conseguiria avançar.
       Ausentou-se do vale fundo, mas, sem qualquer noção de rumo, vagueou dias e noites, em estado aflitivo. 
       Atacado por lobos e víboras em grande número, usava a maior cautela, reconhecendo a própria inexperiência, até que, certa manhã, abeirando-se de um esconderijo cavado na rocha, para colher mel silvestre, foi aprisionado por um ladrão que lhe exigiu a bolsa;
       Entretanto, como não possuísse dinheiro, deixou-se escravizar pelo malfeitor que durante cinco anos sucessivos o reteve em trabalho incessante. 
O servo, porém, agiu com tamanha bondade, multiplicando os exemplos de abnegação, que o espírito do perseguidor se modificou, fazendo-se mais brando e reformando-se para o bem, restituindo-lhe a liberdade.
       Emancipado de novo, o crente fiel recomeçou a jornada, porque a ânsia de alcançar o templo divino povoava-lhe a mente.
       
       Pôs-se a caminho, distribuindo fraternidade e alegria com todos os viajores que lhe cruzassem a estrada, mas, atingindo um vilarejo onde a autoridade era exercida com demasiado rigor, foi encarcerado como sendo um criminoso desconhecido; no entanto, sabendo que seria
traído pelas próprias forças insuficientes, caso buscasse reagir, deixou-se trancafiar até que o problema fosse resolvido, o que reclamou longo tempo. 
       Nunca, entretanto, se revelou inativo no exercício do bem. Na própria cadeia que lhe feria a inocência, encontrou vastíssimas oportunidades para demonstrar boa-vontade, amor e tolerância, sensibilizando as autoridades, que o libertaram enfim.
       O ideal de atingir o santuário sublime absorvia-lhe o pensamento e prosseguiu na marcha;
       todavia, somente depois de vinte anos de lutas e provas, das quais sempre saía vitorioso, é que conseguiu chegar ao Monte Sião para adorar o Supremo Senhor.
       O Mestre interrompeu-se, vagueou o olhar pela sala silenciosa e rematou:
       — Assim é a caminhada do homem para o Reino Celestial.
       Antes de tudo, é preciso reconhecer a sua condição de cego e aplicar a si mesmo os remédios indicados nos mandamentos divinos.    
       Alcançado o conhecimento, apesar da zombaria de quantos o rodeiam em posição de ignorância, é compelido a marchar por si mesmo, e sozinho quase sempre, do escuro vale terrestre para o monte da claridade divina, aproveitando todas as oportunidades de servir, indistintamente, ainda mesmo aos próprios inimigos e perseguidores.
       Quando o seguidor do bem compreende o dever de mobilizar todos os recursos da jornada, em silêncio, sem perda de tempo com reclamações e censuras, que somente denunciam inferioridade, então estará em condições de alcançar o Reino, dentro do menor prazo, porque viverá plasmando as próprias asas para o vôo divino, usando para isso a disciplina de si mesmo e o trabalho incessante pela paz e alegria de todos.



do livro - Jesus no Lar
Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito Neio Lúcio

sábado, 6 de maio de 2017

109) Estranha Moral


CAPÍTULO XXIII - Estranha Moral


       1. Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: 
       - Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e aseus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 
       -E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu discípulo. 
       - Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo. (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 25 a 27 e 33.)

       2. Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe, mais do que a mim, de mim não é digno; aquele que ama a seu filho ou a sua filha, mais do que a mim, de mim não é digno. (S. MATEUS, cap. X, v. 37.)

       3. Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra qual quer dano. 
       Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma alteração. 

     Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os opiadores o tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
       O termo odiar, nesta frase de S. Lucas: Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, está compreendido nessa hipótese. 
       A ninguém acudirá atribuí-la a Jesus. Será então supérfluo discuti-la e, ainda menos, tentar justificá-la. Importaria, primeiro, saber se ele a pronunciou e, em caso afirmativo, se, na língua em que se exprimia, a palavra em questão tinha o mesmo valor que na nossa. 

       Nesta passagem de S. João: 
       "Aquele que odeia sua vida, neste mundo, a conserva para a vida eterna", é indubitável que ela não exprime a idéia que lhe atribuímos.
       A língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias significações.
       Tal, por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação:      
       servia, simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução diurna. 

       Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. 
       Tal, também, a palavra com que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram feitos de pêlos de camelo. 

       Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na alegoria do
buraco de uma agulha. (Ver capítulo XVI, nº 2.) (1)
__________
       (1) Non odit, em latim: Kaï ou miseï em grego, não quer dizer odiar, porém, amar menos. 
       O que o verbo grego miseïn exprime, ainda melhor o expressa o verbo hebreu, de que Jesus se há de ter servido. 
       Esse verbo não significa apenas odiar, mas, também amar menos, não amar igualmente, tanto quanto a um outro. 

       No dialeto siríaco, do qual, dizem, Jesus usava com mais freqüência, ainda melhor acentuada é essa significação. Nesse sentido é que o Gênese (capítulo XXIX, vv. 30 e 31) diz: “E Jacob amou também mais a Raquel do que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada...” 

       É evidente que o verdadeiro sentido aqui é: menos amada. 
       Assim se deve traduzir. 
       Em muitas outras passagens hebraicas e, sobretudo, siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de não amar tanto quanto a outro, de sorte que fora contra-senso traduzi-lo por odiar, que tem
outra acepção bem determinada. 
       O texto de S. Mateus, aliás, afasta toda a dificuldade. - ( Nota do Sr.
Pezzani.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo- CAPÍTULO XXIII - ESTRANHA MORAL - Allan Kardec

quarta-feira, 26 de abril de 2017

108) Missão Do Homem Inteligente Na Terra (excelente!)



Missão Do Homem Inteligente Na Terra


       13. Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. 
       Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta:    
       Nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; 
       É uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a ele. 

       A natureza do instrumento não está a indicar a que utilização deve prestar-se? 
       A enxada que o jardineiro entrega a seu ajudante não mostra a este último que lhe cumpre cavar a terra? Que diríeis, se esse ajudante, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu patrão? 
       Diríeis que é horrível e que ele merece expulso. 
       Pois bem: não se dá o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a idéia de Deus e da Providência entre seus irmãos? 
       Não levanta ele contra o seu senhor a enxada que lhe foi confiada para arrotear o terreno? 
       Tem ele direito ao salário prometido? 
       Não merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Sê-lo-á, não duvideis, e atravessará existências miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve diante dAquele a quem tudo deve.


       A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas, sob a condição de ser bem empregada. 
  Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance.
      Infelizmente, muitos a tomam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. 
       O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma Poderosa Mão pode retirar o que lhe concedeu. 

- Ferdinando, Espírito protetor. (Bordéus, 1862.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo - Allan Kardec
Missão Do Homem Inteligente Na Terra 
Capítulo VII Bem-Aventurados Os Pobres De Espírito
ítem 13


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